Congresso do Paraguai trava renúncia de Santiago Peña e crise política se agrava

Fronteira Política

Sessão convocada para decidir o futuro do presidente terminou sem quórum após saída de parlamentares governistas. Câmara dos Deputados aprovou, por 78 votos, abertura de julgamento político contra o mandatário em meio ao escândalo envolvendo o Ueno Bank.

A crise política no Paraguai ganhou um novo e dramático capítulo. O presidente Santiago Peña apresentou sua renúncia ao cargo na quinta-feira (5), mas o Congresso Nacional não conseguiu concluir a votação para aceitar a saída do chefe do Executivo. A sessão terminou sem quórum depois que parlamentares governistas deixaram o plenário, impedindo uma decisão sobre o pedido.

A situação se agravou porque, no mesmo dia, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade, com 78 votos favoráveis, a abertura de um processo de julgamento político contra Peña. A decisão foi tomada em meio à repercussão da crise financeira envolvendo o Ueno Bank, instituição que passou a ser alvo de intervenção das autoridades monetárias paraguaias.

Com a votação da renúncia interrompida, Santiago Peña permaneceu formalmente na Presidência da República, enquanto o processo de impeachment avançou para o Senado, responsável por analisar as acusações e decidir sobre eventual condenação.

Escândalo financeiro colocou governo na mira

O estopim da crise foi a intervenção no Ueno Bank, determinada pelo Banco Central do Paraguai após a identificação de graves problemas nos indicadores de solvência da instituição.

O banco possui aproximadamente 2,9 milhões de clientes, e a intervenção provocou preocupação entre correntistas, funcionários e setores da sociedade paraguaia. Muitos clientes enfrentaram restrições para movimentar ou acessar seus depósitos.

A situação ganhou dimensão política diante das denúncias envolvendo recursos de entidades públicas e previdenciárias depositados na instituição.

Outro ponto que alimentou a controvérsia foi a relação empresarial anterior de Santiago Peña com o Ueno Holding. O presidente foi sócio do grupo até 2025, segundo informações divulgadas pela imprensa internacional.

Acusações contra Santiago Peña

O pedido de julgamento político aprovado pelos deputados reúne acusações de possível conflito de interesses, mau desempenho das funções públicas e questionamentos sobre decisões administrativas relacionadas ao sistema financeiro.

Entre os pontos apresentados estão a participação anterior de Peña no Ueno Holding, a nomeação de Carlos Carvallo, ex-dirigente ligado à instituição financeira, para comandar o Banco Central, além de questionamentos sobre mudanças na legislação de conflitos de interesses.

O documento também aponta supostas irregularidades na concentração de recursos do Instituto de Previsión Social (IPS), responsável pela previdência de trabalhadores paraguaios, no Ueno Bank.

As acusações ainda precisam ser analisadas no processo político e não representam, por si só, uma condenação judicial do presidente.

Renúncia poderia mudar o cenário político

A tentativa de renúncia também provocou resistência entre parlamentares oposicionistas e manifestantes.

Um dos principais argumentos contrários à aceitação da saída é o possível acesso de Peña à condição de senador vitalício, prerrogativa constitucional concedida a ex-presidentes eleitos, salvo aqueles submetidos a julgamento político e considerados culpados.

Para os críticos do governo, aceitar a renúncia antes da conclusão do processo poderia dificultar a responsabilização política do mandatário.

Enquanto isso, o vice-presidente Pedro Alliana permanece como possível sucessor, caso a vacância do cargo seja formalmente estabelecida.

Protestos aumentam pressão sobre o governo

A crise também chegou às ruas. Correntistas e funcionários do Ueno Bank realizaram manifestações em Assunção, cobrando a devolução dos valores retidos e exigindo explicações das autoridades.

Os protestos também alcançaram Ciudad del Este, importante centro econômico da fronteira com o Brasil, onde manifestantes se reuniram para demonstrar insatisfação com a situação política e financeira do país.

O episódio representa um dos momentos mais delicados do governo Santiago Peña e coloca em evidência a pressão sobre as instituições paraguaias.

O desfecho dependerá agora das decisões do Congresso e do Senado, em um cenário no qual a crise bancária, as acusações políticas e a pressão popular passaram a caminhar juntas.

Vlog do Jaime — Informação num piscar de olhos.