Show de Ana Castela em São Fidélis terá cachê de R$ 850 mil bancado majoritariamente por emenda parlamentar; cidade é administrada pelo mesmo partido da deputada que destinou o recurso
Uma contratação de R$ 850 mil para um único show colocou a Expo São Fidélis, no norte do Rio de Janeiro, no centro de um debate que vai muito além da música: até onde deve ir o uso de dinheiro público para financiar grandes atrações?
A cantora Ana Castela, uma das principais artistas do sertanejo atualmente, se apresenta nesta quinta-feira (27), durante a 14ª Expo São Fidélis. O cachê será pago com recursos de uma emenda parlamentar de R$ 1 milhão destinada ao município por solicitação da deputada federal Dani Cunha (PL-RJ).
A verba foi encaminhada para a área de turismo por meio da Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados e ficou sob responsabilidade do município para aplicação dentro da finalidade prevista. A prefeitura ainda participa com uma contrapartida de R$ 50 mil.
O detalhe que alimenta a discussão política é que São Fidélis é administrada pelo PL, mesmo partido de Dani Cunha. O prefeito José William Ribeiro da Silva também é filiado à legenda. A parlamentar confirmou ter destinado o recurso ao município, mas afirmou que a escolha de como utilizar a verba cabe à prefeitura.
Segundo documentos apresentados pela prefeitura ao Ministério do Turismo, a festa costuma registrar público médio de aproximadamente 2 mil pessoas por dia. Para a apresentação de Ana Castela, entretanto, a estimativa chega a 4 mil espectadores.
O valor do cachê representa, portanto, a maior parcela da emenda de R$ 1 milhão destinada ao evento.
E é justamente aí que surge a pergunta que ultrapassa a preferência política ou musical:
um show de R$ 850 mil é a melhor forma de transformar dinheiro público em benefício para a população?
Não se trata de questionar o sucesso da cantora ou a capacidade de atrair público. O ponto é discutir prioridades, transparência e retorno para o cidadão.
A contratação ganhou ainda mais visibilidade depois que Ana Castela apareceu ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) durante a Festa do Peão de Barretos fazendo com as mãos o número 22, associado ao PL. A coincidência temporal fez o episódio repercutir nas redes sociais.
Não há, porém, nas informações públicas consultadas, evidência de que a fotografia tenha relação com a contratação do show. A conexão entre os fatos é temporal e política, não uma prova de irregularidade.
Também é importante destacar que emenda parlamentar não significa, por si só, irregularidade. O recurso segue uma finalidade pública definida, e cabe ao município executar a verba dentro das regras estabelecidas.
A discussão, portanto, é outra: qual é o limite razoável para gastar dinheiro público com entretenimento?
A festa pode movimentar comércio, hotéis, restaurantes e outros setores da economia local. A própria expectativa de público é utilizada como justificativa para a contratação de uma atração de grande alcance.
Mas, quando quase todo o recurso federal destinado ao evento é concentrado no cachê de uma única artista, a pergunta permanece:
quanto a cidade ganha — e quanto custa ao contribuinte?
No fim, a questão não é apenas sobre Ana Castela.
É sobre quem decide como o dinheiro público é gasto, quais critérios são utilizados e se a população recebe, de fato, um retorno proporcional ao investimento.
Porque quando o dinheiro é público, a festa pode até durar uma noite.
Mas a conta e a responsabilidade permanecem muito depois que o palco é desmontado.

