Enquanto milhões de brasileiros acordam antes do sol nascer, enfrentam ônibus lotado, batem ponto e encaram jornadas puxadas na escala 6×1 para garantir o sustento da família, em Nova Tebas, no interior do Paraná, a rotina política parece seguir em outro planeta.
A sessão da Câmara Municipal realizada nesta segunda-feira (18) entrou para o hall das mais constrangedoras do país: durou menos de 20 segundos porque apenas um vereador apareceu no plenário. Isso mesmo. Dos nove parlamentares eleitos para representar a população, somente um compareceu para abrir oficialmente os trabalhos e encerrá-los imediatamente por falta de quórum.
A cena, transmitida pelas redes sociais oficiais da Câmara, revoltou moradores e viralizou nas redes. O vice-presidente da Casa, Vanderley Borgert (PP), abriu a sessão de forma protocolar e, diante do vazio no plenário, decretou o fracasso da reunião legislativa quase instantaneamente.
A justificativa apresentada pela Câmara foi de que sete vereadores estavam em Brasília participando da “XXVII Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios”, evento político voltado a debates municipalistas e articulações institucionais. O detalhe que chamou atenção foi o custo da viagem: segundo informações divulgadas, os parlamentares receberam cinco diárias de R$ 1,2 mil cada, além de despesas para uma servidora pública, totalizando cerca de R$ 48 mil aos cofres públicos.
Embora a participação em eventos oficiais seja prevista legalmente, a situação expôs um problema recorrente na política brasileira: a sensação de distanciamento entre representantes públicos e a realidade da população. Afinal, para o trabalhador comum não existe “sessão fracassada”. Quem falta ao serviço perde o dia, recebe advertência ou até é demitido. Já no Legislativo, mesmo sem reunião, os salários continuam garantidos.
A Câmara alegou em nota que os vereadores não recebem por sessão, mas sim por subsídio mensal fixo, e afirmou que os trabalhos administrativos seguem “em dia”. Ainda assim, a repercussão negativa foi inevitável.
O episódio também reacendeu críticas sobre gastos com viagens, diárias e a produtividade de parte do Legislativo municipal em cidades pequenas. Levantamentos divulgados por veículos locais apontam que os gastos com diárias da Câmara de Nova Tebas já se aproximam de R$ 300 mil entre 2025 e 2026.
Para muitos brasileiros, o caso simboliza exatamente aquilo que mais revolta o cidadão comum: políticos pedem sacrifícios da população, defendem discursos sobre produtividade e responsabilidade fiscal, mas frequentemente demonstram pouca eficiência quando o assunto é cumprir o básico estar presente para trabalhar.
No fim das contas, a sessão relâmpago de Nova Tebas virou retrato de um Brasil onde o trabalhador corre contra o relógio… enquanto alguns políticos parecem competir para ver quem trabalha menos.

