Tensão na fronteira: protesto de médicos termina em confronto e paralisa acesso à Ponte da Amizade

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Manifestação em Ciudad del Este reuniu profissionais de saúde e provocou bloqueios no trânsito; polícia utilizou gás e balas de borracha para conter avanço do grupo

CIUDAD DEL ESTE — A região da Ponte da Amizade viveu momentos de tensão na tarde desta sexta-feira (28), quando uma manifestação de médicos terminou em confronto com forças de segurança paraguaias nas proximidades da principal ligação rodoviária entre Ciudad del Este e Foz do Iguaçu.

A mobilização, que marcou o encerramento de uma greve nacional da categoria, provocou interrupções temporárias no trânsito e atingiu diretamente uma das áreas de maior circulação de veículos entre Paraguai e Brasil.

Os manifestantes pretendiam avançar até a área de acesso à ponte, mas foram contidos pela polícia antes de alcançar a fronteira.

O episódio começou a ganhar tensão ainda durante o deslocamento da marcha pelas principais vias de Ciudad del Este. Policiais do Grupo Especial de Operações (GEO) foram posicionados em pontos estratégicos para impedir que a manifestação avançasse em direção à Ponte da Amizade.

Na região da rotatória Oasis, os agentes formaram uma barreira. O grupo de médicos, entretanto, conseguiu ultrapassar o bloqueio e continuou caminhando.

A segunda tentativa de contenção ocorreu na rotatória Reloj, considerada um dos últimos pontos antes do acesso à ponte.

Foi nesse local que a situação se agravou.

A polícia utilizou gás lacrimogêneo e munição de impacto controlado para dispersar os manifestantes. Houve correria, empurrões e momentos de confronto entre os dois lados.

Depois da intervenção policial, o protesto foi contido.

A manifestação também provocou reflexos no trânsito internacional.

Com as pistas de acesso à Ponte da Amizade temporariamente bloqueadas, veículos que tentavam entrar ou sair do Paraguai enfrentaram congestionamentos que se estenderam por diferentes pontos de Ciudad del Este.

A situação afetou uma das principais rotas comerciais e turísticas da região de fronteira, utilizada diariamente por milhares de pessoas.

Durante a manifestação, os médicos fizeram uma representação simbólica de forte crítica ao governo.

Um boneco associado à tradição paraguaia do Judas Kái foi queimado pelos manifestantes. A figura carregava os rostos do presidente Santiago Peña e da ministra da Saúde, María Teresa Barán.

O ato expressou a insatisfação da categoria com a política de saúde pública e com as condições enfrentadas pelos profissionais nos hospitais paraguaios.

A manifestação ocorreu no último dia de uma paralisação nacional iniciada na segunda-feira (24).

Segundo representantes dos médicos, a greve teve forte adesão nos serviços públicos de saúde do departamento de Alto Paraná.

O encerramento da paralisação, porém, não significa o fim do movimento.

A categoria estabeleceu um novo prazo para que o governo apresente respostas às reivindicações. Caso não haja avanço até segunda-feira (31), os profissionais ameaçam ampliar as medidas de pressão.

Entre as possibilidades está uma onda de renúncias de médicos que atuam no sistema público.

Segundo representantes do movimento, aproximadamente 70 cirurgiões pediátricos já teriam preparado pedidos de demissão. Profissionais de outras áreas, incluindo anestesiologistas, também estudam abandonar os hospitais públicos.

Os médicos reivindicam mudanças na estrutura da carreira, reajuste salarial e regularização de profissionais contratados temporariamente.

Também estão entre as reclamações a falta de medicamentos, materiais hospitalares e equipes suficientes para atender à demanda.

A categoria afirma que o salário-base permanece sem reajuste desde 2012 e defende que a remuneração para um vínculo de 12 horas semanais passe de 5 milhões para 8 milhões de guaranis.

O governo, por sua vez, argumenta que uma elevação geral nesse nível teria impacto elevado sobre as contas públicas.

Como alternativa, o Ministério da Saúde trabalha com a possibilidade de estabelecer uma carreira médica estruturada, com remuneração vinculada à formação e à especialização de cada profissional.

A expectativa agora está voltada para uma nova assembleia dos médicos.

O resultado poderá definir se a categoria encerra a mobilização ou parte para uma nova etapa de pressão contra o governo.

Se as negociações fracassarem, o Paraguai poderá enfrentar uma nova onda de paralisações justamente em um momento de forte tensão no sistema público de saúde.

E, na fronteira, o impacto pode ir além dos hospitais.

Qualquer nova mobilização em Ciudad del Este poderá voltar a atingir diretamente o trânsito da Ponte da Amizade e milhares de brasileiros e paraguaios que dependem diariamente da ligação entre os dois países.