Intervenção no banco ligado ao passado empresarial do presidente deixa milhões de clientes sem acesso imediato ao dinheiro, expõe recursos públicos e provoca renúncia do chefe do Banco Central. Oposição promete pedir o afastamento de Peña.
ASSUNÇÃO – PARAGUAI | 3 DE NOVEMBRO DE 2026
O Paraguai enfrenta uma das maiores crises financeiras e políticas dos últimos anos. O Banco Central do Paraguai assumiu o controle do Ueno Bank e iniciou um procedimento de resolução da instituição após identificar uma grave insuficiência no índice de solvência, colocando em risco a continuidade das operações do banco e deixando milhões de clientes sem acesso imediato às suas contas.
O episódio ganhou proporções ainda maiores porque o banco possui ligações empresariais com o atual presidente paraguaio, Santiago Peña, que manteve participação no grupo controlador da instituição até março de 2025, segundo informações da Reuters.
A crise provocou uma onda de questionamentos sobre a fiscalização do sistema financeiro, a relação entre o poder político e o setor bancário e a exposição de recursos públicos à instituição.
MILHÕES DE CLIENTES E DINHEIRO DA PREVIDÊNCIA SOB PRESSÃO
O Ueno Bank possui aproximadamente 3 milhões de clientes e administrava entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em recursos públicos.
Um dos pontos mais delicados envolve o Instituto de Previdência Social do Paraguai (IPS), que mantém aproximadamente US$ 355 milhões aplicados na instituição, segundo informações divulgadas pela área financeira do próprio instituto.
Além disso, cerca de 32 mil aposentados possuem depósitos no banco.
Com a suspensão dos serviços, clientes foram às agências em busca de informações e de acesso ao próprio dinheiro. A situação provocou preocupação entre trabalhadores, aposentados e investidores.
O governo anunciou medidas para acelerar a utilização do Fundo de Garantia de Depósitos e viabilizar a devolução dos valores protegidos, além de buscar mecanismos para resguardar os recursos públicos e previdenciários.
A LIGAÇÃO EMPRESARIAL DE SANTIAGO PEÑA COM O BANCO
O envolvimento político é um dos aspectos mais sensíveis do episódio.
Antes de assumir a Presidência, Santiago Peña teve participação empresarial no grupo que controlava o Ueno Bank, vínculo encerrado em março de 2025.
Outro personagem central é Carlos Carvallo, que presidia o Banco Central paraguaio e anteriormente havia comandado o Ueno. Sua trajetória profissional passou a ser questionada diante da crise e das dúvidas sobre a fiscalização da instituição.
Nesta terça-feira (3), Carvallo apresentou sua renúncia após pedido do próprio presidente Santiago Peña.
A situação levantou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses e sobre a atuação dos órgãos responsáveis pela supervisão bancária. Até o momento, entretanto, os vínculos empresariais não comprovam, por si só, participação do presidente em qualquer irregularidade.
OPOSIÇÃO ANUNCIA IMPEACHMENT CONTRA PEÑA
A crise financeira chegou diretamente ao Congresso paraguaio.
Senadores da oposição anunciaram que vão promover um pedido de julgamento político contra Santiago Peña e o vice-presidente Pedro Alliana.
Os parlamentares também defendem investigações sobre a atuação da diretoria do Banco Central e dos responsáveis pela fiscalização do Ueno Bank.
A oposição questiona como uma instituição que cresceu rapidamente, recebeu grandes volumes de recursos públicos e manteve relações com integrantes do ambiente político chegou a uma situação que exigiu a intervenção das autoridades.
O pedido de impeachment ainda depende de tramitação e aprovação parlamentar. Pela Constituição paraguaia, a Câmara dos Deputados precisa aprovar a acusação por dois terços dos votos. Depois, o Senado julga o caso.
O Partido Colorado, ao qual pertence Peña, possui força parlamentar suficiente para representar um obstáculo à iniciativa oposicionista.
INVESTIGAÇÃO CRIMINAL E PRISÕES
A crise também avançou para a esfera policial e judicial.
O Ministério Público solicitou medidas contra oito pessoas ligadas à instituição, em meio à investigação de possíveis irregularidades envolvendo a administração do banco.
Entre os investigados estão dirigentes e executivos da instituição. As autoridades também apuram operações de crédito e possíveis financiamentos envolvendo empresas relacionadas ao grupo controlador.
As suspeitas ainda precisam ser esclarecidas pelas investigações e pelo devido processo legal.
O QUE ACONTECE AGORA?
O caso Ueno Bank deixou de ser apenas uma questão financeira. Tornou-se um teste para as instituições paraguaias, para a credibilidade do sistema de fiscalização bancária e para o próprio governo Santiago Peña.
De um lado, milhares de clientes aguardam a recuperação do acesso aos recursos. De outro, parlamentares exigem explicações sobre a exposição de dinheiro público e as relações empresariais envolvendo o banco.
A pergunta que agora movimenta o Paraguai é: como uma instituição financeira que alcançou milhões de clientes e administrava centenas de milhões de dólares em recursos públicos chegou a uma situação que exigiu intervenção do Banco Central?
Enquanto as investigações avançam, Santiago Peña enfrenta uma pressão política que pode chegar ao Congresso e colocar seu mandato no centro de uma disputa institucional.
VLOG DO JAIME – Informação num piscar de olhos.
Fontes: Reuters, Associated Press, Agência EFE, Banco Central do Paraguai.
