A discussão sobre o fim da escala 6×1 chega ao Congresso justamente quando a campanha presidencial começa a ganhar velocidade. E Flávio Bolsonaro escolheu um caminho que pode se transformar em uma das maiores vulnerabilidades de sua candidatura.
O senador defende uma alternativa baseada na liberdade para que trabalhador e empregador negociem diretamente a jornada, com remuneração por hora trabalhada. Flávio evita, porém, dizer de forma direta como votará na PEC que reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais e garante dois dias de descanso remunerado.
A tese parece simples: mais liberdade, menos Estado e mais poder de escolha para o trabalhador.
Mas existe uma pergunta que a campanha terá de responder:
liberdade para negociar existe quando os dois lados não têm o mesmo poder de barganha?
Na teoria, patrão e empregado sentam à mesa, negociam e chegam a um acordo. Na prática, para quem depende do salário no fim do mês, a negociação pode ser bem menos romântica.
É aí que o discurso pode virar um verdadeiro conto de Oz.
A proposta de Flávio promete flexibilidade para quem precisa trabalhar menos e possibilidade de ganhar mais para quem quiser trabalhar mais. A ideia também preservaria direitos constitucionais, segundo o candidato.
O problema é eleitoral.
Pesquisa Datafolha citada pela imprensa aponta que 71% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1. E a PEC que está no Senado já recebeu parecer favorável na Comissão de Constituição e Justiça.
Ou seja: Flávio não está entrando em um debate qualquer. Está escolhendo enfrentar uma pauta que tem forte apelo popular e justamente durante uma eleição.
Se a proposta for apresentada ao eleitor como “mais liberdade para trabalhar”, o adversário terá uma resposta pronta:
“Você quer dois dias de descanso ou quer negociar com o patrão para descobrir quantos dias poderá descansar?”
Essa pode ser a pergunta que acompanhará Flávio durante a campanha.
A defesa da liberdade contratual pode fazer sentido dentro de uma visão liberal da economia. Mas transformar essa tese em bandeira eleitoral, enquanto milhões de trabalhadores esperam justamente por uma redução da jornada, é uma aposta de alto risco.
E há outro detalhe: aliados de Flávio já defendiam que a votação da 6×1 ocorresse somente depois das eleições. O próprio coordenador de sua campanha, Rogério Marinho, defendeu o adiamento do debate.
Flávio pode estar tentando evitar que Lula transforme o fim da 6×1 em uma vitória eleitoral. Mas, ao fazer isso, corre o risco de transformar a própria resistência à proposta em um problema eleitoral.
No fim, a questão talvez seja menos complicada do que parece:
o eleitor vai enxergar liberdade ou vai enxergar alguém tentando impedir que ele tenha mais tempo para viver?
Essa resposta pode custar caro nas urnas.

